Muito além de uma incômoda visão sobre o mundo. Barba espessa, cabelos em desalinho, camisa gola pólo, bermuda e chinelas gastas. Frases curtas expondo gentileza e simplicidade na hora de verbalizar histórias. Dos lábios escondidos de Fernando Eduardo Ary Júnior – mais conhecido como Fernando Catatau –, ecoam as palavras de um artista genuinamente cearense. Paira no ar uma boa dose de introspecção. Subjetivação. Branda oclusão. Perigo?
As letras dele traduzem um íntimo lapidado. O tempo para pensar cada composição não exclui a pessoalidade, mas permite ao compositor camuflar-se nas próprias metáforas. Em uma entrevista “tufa”, Fernando tenta projetar, com silêncios alternados, rápidos encontros com ele mesmo.
O ato de olhar para dentro é expresso com dificuldade. Um libriano nato precisa pensar, construir as idéias, pesar os assuntos e digerir a própria trajetória para, só então, regurgitar-se. Há muita coisa implícita no caminho de um jovem surfista que se encantou com Pink Floyd nos fins de tarde da Ponte Metálica e se destacou na cena da música nacional. Compreendendo isso, Catatau vai ajustando, pouco a pouco, a frequência de seu silêncio em busca do tom perfeito para revelar-se, mesmo que seja de viés.
O resultado é a densa figuração de um tremor incisivo, e não menos bonito, das cordas da guitarra. Um esboço de quem tenta, com sons, reduzir a dor e abraçar os amigos. Ser “galeroso”. Na camaradagem, Fernando se apaixonou por acordes menores e notas raivosas. Os amigos e o acaso o levaram do piano ao rock, à guitarra, à obsessão e, enfim, à multiplicidade do Cidadão Instigado.
Por um projeto multifacetado, Catatau trocou a Varjota, redoma da infância dele, pela estrada. O objetivo era traçar a própria história. Começou criando trilhas sonoras para a vida e, a partir daí, abandonou de vez as máscaras de economista e engenheiro que um dia cogitou usar.
No espaço gélido da grande São Paulo, Fernando mergulhou na solidão e descobriu a si mesmo. Imprimiu-se em letras difíceis de consumir. Misturou rock, brega e psicodelia em um som inconfundível. A ousadia o tornou pesquisador de sons, músico parceiro, profissional único. Trabalhou com o ídolo Arnaldo Antunes, abrilhantou um disco de Céu, “sujou” com perfeição as músicas de Vanessa da Matta, ganhou o mundo com Otto. Estava efetivado na nova cena da música popular brasileira.
O cearense criou asas nos pés e ganhou o infinito ao insistir nos erros, assumir a voz nasalizada e estudar as tênues variações de pedais, amplificadores e mesas de som. Até o discreto cruzar de pernas nos agudos momentos de timidez é ofuscado na incessante busca pelo diferente.
No processo de construção artística, Fernando criou personagens, provocou reflexões e trabalhou acordes maiores na guitarra. Chegou ao ponto de apaixonar-se perdidamente pelos instrumentos, entregando-se à introspecção criativa e rotulando-se “guitarrista de rock brasileiro”.
A captação do retrato de Fernando Catatau perpassa uma trama balbuciada entre timbres e letras. Nosso olhar sobre ele é oblíquo. Assim como são os pedais, que alteram e multiplicam os sons das guitarras. Assim como é o próprio artista, que escoou o piano clássico, o teclado do forró elétrico e a nervosa guitarra do rock no ardiloso Cidadão Instigado.




