Da saudade que Vovó me fez hoje

A falta que Vovó me faz tem cheiro de sabonete. Quando a saudade aperta, é na lembrança dos lençóis perfumados da casa dela que me apego, embora saiba que afeto mesmo Vovó gosta de demostrar é com a comida. Faz doce, bolo e tapioca mais para acarinhar do que para alimentar os netos, por mais que esteja sempre reclamando que preciso ganhar alguns quilinhos e tentando colocar uma ou duas colheres de arroz no meu prato enquanto converso pelos cotovelos.

Aliás, foi por compreender claramente esse afeto gastronômico de Vovó que, morando em uma cidade vizinha à dela e a visitando todos os fins de semana, alcancei o meu maior peso. Queijo, doce de leite e tapioca têm tudo o mesmo gosto pra mim: amor de vó. E, pra ela, amor de neto também se sente no paladar. Tem gosto de pizza com refrigerante de caju.

Dia desses, Vovó esteve aqui em Fortaleza para fazer exames no coração, e o médico fez algumas restrições gastronômicas. Assim que a encontrei, a primeira coisa que me disse: “Não posso mais comer pizza. E agora?”. Agora vamos ter que arranjar um amor de neto mais light. E, enquanto a distância não se encurta pra gente matar a saudade, eu vou colocando sabonetes entre os lençóis e tentando entender porque esse truque só funciona de verdade com a senhora.

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Reduzindo o volume dos silêncios nos intervalos que cortam a fala, surge o retrato de um homem oblíquo

Muito além de uma incômoda visão sobre o mundo. Barba espessa, cabelos em desalinho, camisa gola pólo, bermuda e chinelas gastas.  Frases curtas expondo gentileza e simplicidade na hora de verbalizar histórias. Dos lábios escondidos de Fernando Eduardo Ary Júnior – mais conhecido como Fernando Catatau –, ecoam as palavras de um artista genuinamente cearense. Paira no ar uma boa dose de introspecção. Subjetivação. Branda oclusão. Perigo?

As letras dele traduzem um íntimo lapidado. O tempo para pensar cada composição não exclui a pessoalidade, mas permite ao compositor camuflar-se nas próprias metáforas. Em uma entrevista “tufa”, Fernando tenta projetar, com silêncios alternados, rápidos encontros com ele mesmo.

O ato de olhar para dentro é expresso com dificuldade. Um libriano nato precisa pensar, construir as idéias, pesar os assuntos e digerir a própria trajetória para, só então, regurgitar-se. Há muita coisa implícita no caminho de um jovem surfista que se encantou com Pink Floyd nos fins de tarde da Ponte Metálica e se destacou na cena da música nacional. Compreendendo isso, Catatau vai ajustando, pouco a pouco, a frequência de seu silêncio em busca do tom perfeito para revelar-se, mesmo que seja de viés.

O resultado é a densa figuração de um tremor incisivo, e não menos bonito, das cordas da guitarra. Um esboço de quem tenta, com sons, reduzir a dor e abraçar os amigos. Ser “galeroso”. Na camaradagem, Fernando se apaixonou por acordes menores e notas raivosas. Os amigos e o acaso o levaram do piano ao rock, à guitarra, à obsessão e, enfim, à multiplicidade do Cidadão Instigado.

Por um projeto multifacetado, Catatau trocou a Varjota, redoma da infância dele, pela estrada. O objetivo era traçar a própria história. Começou criando trilhas sonoras para a vida e, a partir daí, abandonou de vez as máscaras de economista e engenheiro que um dia cogitou usar.

No espaço gélido da grande São Paulo, Fernando mergulhou na solidão e descobriu a si mesmo. Imprimiu-se em letras difíceis de consumir. Misturou rock, brega e psicodelia em um som inconfundível. A ousadia o tornou pesquisador de sons, músico parceiro, profissional único. Trabalhou com o ídolo Arnaldo Antunes, abrilhantou um disco de Céu, “sujou” com perfeição as músicas de Vanessa da Matta, ganhou o mundo com Otto. Estava efetivado na nova cena da música popular brasileira.

O cearense criou asas nos pés e ganhou o infinito ao insistir nos erros, assumir a voz nasalizada e estudar as tênues variações de pedais, amplificadores e mesas de som. Até o discreto cruzar de pernas nos agudos momentos de timidez é ofuscado na incessante busca pelo diferente.

No processo de construção artística, Fernando criou personagens, provocou reflexões e trabalhou acordes maiores na guitarra. Chegou ao ponto de apaixonar-se perdidamente pelos instrumentos, entregando-se à introspecção criativa e rotulando-se “guitarrista de rock brasileiro”.

A captação do retrato de Fernando Catatau perpassa uma trama balbuciada entre timbres e letras. Nosso olhar sobre ele é oblíquo. Assim como são os pedais, que alteram e multiplicam os sons das guitarras. Assim como é o próprio artista, que escoou o piano clássico, o teclado do forró elétrico e a nervosa guitarra do rock no ardiloso Cidadão Instigado.

Um estêncil para esboçar quem sou

Da enigmática teia de acontecimentos que se entrelaçam ao longo da vida, muitas são as lembranças que, inexplicavelmente, nos ocupam o primeiro plano. Mesmo aquelas que surgem aparentemente desconexas só nos iluminam a mente porque – de alguma forma – nos marcaram. As memórias, sejam as de traços bem desenhados ou as de silhuetas disformes, reproduzem grande parte do que somos e, na ânsia de dar sentido à vida, emaranham-se na tentativa de desvendar uma complexa rede de porquês.

A primeira memória não é minha, mas a história contada tantas vezes durante a infância serve de estêncil para esboçar quem sou. Minha madrinha Celina, envolvida com a moda da astrologia nos confins de 1987, copiava das revistas tudo relacionado a meu signo e data de nascimento. Nas cores embaralhadas daquelas páginas, ela previu que eu seria jornalista muito antes de me conhecer. Cresci ganhando livros de aniversário, escrevendo as histórias da família em diários e procurando não dar importância àquela profissão esquisita que todos diziam ter tudo a ver comigo, mas que, morando no interior do Ceará, eu só conhecia através das moças maquiadas da televisão.

Paixão mesmo por Jornalismo só veio muitos anos depois. Nasceu discretamente, se esgueirando para caber entre dois sorrisos compartilhados de uma ponta a outra da escada. Do último degrau, lá em cima, Vovô Chico alargava o sorriso ao ouvir um sonoro grito meu, advindo lá de baixo: “Vovô, cheguei!”. Ele descia as escadas em disparada para me ajudar com a mala. Segurava uma única alça que conseguia me tirar das mãos e subíamos os dois, discutindo de quem seria o papel, segundo o código de ética da gentileza, de carregar a bagagem: é do homem idoso ou da mocinha nova?

A cena se repetiu durante muitos sábados, no ano de 2005, e retorna com frequência ao primeiro plano da minha memória por contemplar o início de uma saudade desmedida e a decisão sobre qual caminho profissional eu seguiria na vida. Aos 17 anos, estava dolorosamente dividida entre as ciências humanas e biológicas. Acabei por me aventurar na segunda opção e me matriculei no curso de Biologia da Universidade Regional do Cariri (Urca), uma forma que o destino encontrou de me levar para as barras das calças do meu avô. Sem conhecer quase ninguém na cidade do Crato, onde fica a Urca, passava os dias ansiosa pela chegada do final de semana, para que eu pudesse enfim viajar até a cidade vizinha e ouvir as histórias contadas por Vovô, em Várzea Alegre. Foi quando me descobri repórter.

Sempre após o almoço, Vovô Chico, ainda sem a certeza de que tinha câncer de estômago, me convidava: “Bia, vamos comigo esperar a dor?”. Eu nunca recusei. Ele armava a rede em um terraço da casa que, de tão estreito, mais parecia um corredor. Colocava uma fita K7 com as músicas de Luiz Gonzaga para rodar em um rádio pequenininho e me fitava, eu ali sentada em uma cadeirinha bem na frente dele. “Você sabe como eu comprei essa máquina de costura pra sua avó?”. E começava a descrever cenas e a contar histórias da família – das alegres às mais rancorosas. No meio da narrativa, chegava a dor. Vovô apertava os olhos com força para aguentá-la e continuava a narrar as histórias. Eu ouvia atentamente e fazia mil perguntas, tentando preencher as lacunas e entender os acontecimentos. Foram as minhas primeiras entrevistas.

Nos últimos meses que Vovô passou neste mundo, ele me escolheu para contar suas memórias. Na confiança dele, me vi jornalista. E foi Vovô Chico, um agricultor com a sabedoria moldada pela aridez dos dias,  o primeiro a me ensinar que a reportagem é um encontro. Predispõe de cumplicidade porque, ao repórter, o entrevistado confia a própria vida e, a ele, entrega a responsabilidade de traduzir, na página em branco, gestos, histórias, sentidos, momentos. Ao repórter, cabe lançar olhares atentos sobre as fontes. Olhares daqueles que se multiplicam a cada piscadela para dar conta dos macro e micro acontecimentos.

Desde que comecei a estudar Jornalismo, procuro desbravar os caminhos da Comunicação para encontrar as formas mais adequadas de contar as histórias das pessoas e dos lugares e mesmo de explicar os seus contextos. Publiquei livro-reportagem, realizei curta-metragem, escrevi pra jornal e revista, vivi cada reportagem até que ela se desprendesse de mim. E, mesmo nos momentos de exaustão, eu me vi apaixonada por cada uma dessas experiências. Foram muitas as crises existenciais e as dúvidas entre o texto e o vídeo, entre a palavra e a imagem. Mas, no meio de tudo isso, a única certeza que sempre permaneceu em mim é a de que sou repórter. Sou apaixonada pelas notícias que vêm da rua, aquelas pautadas nas pupilas das pessoas. Vejo o Jornalismo como uma incessante busca por respostas, como meio para compreensão da realidade, como canal para dar sentido ao que apenas aparentemente não tem nenhum. Vejo o repórter como alguém que carrega nos olhos os espelhos do mundo.